05 janeiro 2011

José e Pilar

José e Pilar é um filme de Miguel Gonçalves Mendes. O filme documenta a vida do escritor José Saramago e o relacionamento com sua mulher, Pilar del Rio. Muito mais do que isso, revela a intimidade de um Saramago nunca visto antes, um caminhar pelas pedras de Lanzarote, o momento da construção do livro A viagem do elefante bem como a ideia do último livro, tudo registrado pela lente que o segue em todos os cantos possíveis, construindo uma certa intimidade com o único escritor, em língua portuguesa, a ganhar o Nobel de literatura. A primeira cena do filme, que posso dizer demasiada particular, não pelo lugar, mas pela mensagem é dirigida a Pilar: Nos encontramos em outro sítio. A câmera incessante segue Saramago na estreia de livros, conferências e tem grande participação no tédio e na chatice de ser famoso, entrevistas intermináveis, pedidos estranhos na hora dos autógrafos, como o ocorrido no Brasil por um rapaz que pediu a Saramago para desenhar um hipopótamo no livro dele ( não sei por qual motivo mas ele pediu). O que achei de belo e interessante, é a documentação em áudio visual de um escritor que considero o mais importante do século, com o filme percebemos de fato quem é o Saramago escritor, e isso possibilita uma outra visão sobre seus livros, influencia a vontade de ler mais e mais Saramago. Para quem não conhece os seus livros, não tem como sair do cinema sem comprar um exemplar, de preferência em sebo, visto que o comércio aproveita-se de sua recente morte para colocar os preços nas alturas. Portanto, recomendo não só o filme, mas principalmente seus livros, o filme pode ser importante para conhecer as ideias do escritor, mas de fato, o livro é fundamental para entender a densa produção em tão pouco tempo que Saramago conseguiu fazer.

2 comentários:

Samuel disse...

Eu assisti com o charles um documentário sobre José Saramago. Acho que é o mesmo de sua resenha. Se for, concordo com seu ponto de vista: instiga a leitura. Além disso, pra quem gosta de escrever como nós, alimenta o romance de ser escritor. Como diria o Z: bacana...

Samuel.

José Araújo disse...

Adorei sua resenha sobre José e Pilar, infelizmente acabei não assistino o filme sobre Saramago, por quem tenho entusiástica admiração,e lhe trago aqui um texto dele que recolhi literal e indevidamente do “Caderno de Saramago”, pela Internet,escrito em agosto de 2009:

“Um Terceiro Deus”
“Creio que as teses de Huntington sobre o “choque de civilizações”, atacadas por uns e celebradas por outros aquando do seu aparecimento, mereceriam agora um estudo mais atento e menos apaixonado. Temo-nos habituado à ideia de que a cultura é uma espécie de panaceia universal e de que os intercâmbios culturais são o melhor caminho para a solução de conflitos. Sou menos optimista. Creio que só uma manifesta e ativa vontade de paz poderia abrir a porta a esse fluxo cultural multidirecional, sem ânimo de domínio de qualquer de suas partes. Essa vontade talvez exista por aí, mas não os meios para concretizar. Cristianismo e islamismo continuam a comportar-se como inconciliáveis irmãos inimigos incapazes de chegar ao verdadeiro pacto de não agressão que talvez trouxesse alguma paz no mundo. Ora, já que inventámos Deus e Alá, com os desastrosos resultados conhecidos, a solução talvez estivesse em criar um terceiro deus com poderes suficientes para obrigar os impertinentes desavindos a depor as armas e deixar a humanidade em paz. E que depois esse terceiro deus nos fizesse o favor de retirar-se do cenário aonde se vem desenrolando a tragédia de um inventor, o homem, escravizado pela sua própria criação, deus. O mais provável, porém, é que isso não tenha remédio e que as civilizações continuem a se chocar umas com as outras”.
José Saramago